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Velocista dopou-se antes de ganhar cinco medalhas olímpicas
Marion Jones: "Fui desonesta e traí a vossa confiança"
07.10.2007
Por Duarte Ladeiras
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Kai Pfaffenbach/Reuters
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| Jones vai ser alvo de vários inquéritos na justiça desportiva |
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A máscara de Marion Jones caiu esta semana, após quatro anos em que negou constamente o recurso ao doping. Primeiro com uma carta aos familiares e amigos próximos, depois num tribunal de Nova Iorque e, por fim, perante os seus fãs, através da comunicação social, aquela que foi considerada, por um largo período, a melhor desportista feminina do mundo admitiu ter usado um esteróide indetectável durante dois anos, inclusive no período de preparação para os Jogos Olímpicos de Sydney 2000, competição em que conquistou cinco medalhas: três de ouro e duas de bronze.
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"É com imensa vergonha que me apresento perante vocês e lhes digo que traí a vossa confiança. Fui desonesta e têm o direito de estar zangados comigo. Desiludi a minha família, o meu país e a mim própria", afirmou Marion Jones, mergulhada em lágrimas e apoiada pela sua mãe, à saída de um tribunal de Nova Iorque onde foi responder por duas acusações de falso testemunho a agentes federais: um numa investigação relacionada precisamente com a sua ligação ao mundo da dopagem e o outro num inquérito a um esquema de fraude bancária e lavagem de dinheiro em que esteve envolvido o seu ex-marido Tim Montgomery.
Perante o juiz, Jones admitiu que usou tetrahidrogestrinona (THG) "várias vezes antes dos Jogos Olímpicos e depois". A THG é um esteróide sintético desenvolvido pela BALCO (Bay Area Laboratory Co-Operative), empresa californiana produtora de suplementos nutricionais, e que esteve na origem do maior escândalo de doping no atletismo dos EUA.
Tanto na carta que enviou aos familiares e amigos, à qual o "The Washington Post" teve acesso, como no tribunal, Jones alegou que foi o seu treinador, Trevor Graham, que lhe deu a THG, dizendo-lhe que era um suplemento nutricional. "Em 1999, o meu treinador, Trevor Graham, forneceu-me alguns suplementos nutricionais. Houve um em particular que ele disse ser óleo de semente de linho. Ele aconselhou-me a tomar esse suplemento colocando algumas gotas debaixo da língua e depois engolir. (...) Confiava nele e nunca pensei por um segundo que ele colocaria em risco a minha carreira, ou a dele. (...) Ele forneceu-me isto durante as épocas de 1999 e 2000", contou Jones na carta. "Consumi esta substância várias vezes antes dos Jogos de Sydney e continuei a usá-la depois", disse a velocista ao juiz.
Jones só soube que o alegado suplemento era um dopante quando deixou o campo de treino de Graham (em 2002), mas, na carta, a velocista admitiu que deveria ter reagido aos sinais de alerta: primeiro quando o técnico lhe pediu para não falar com ninguém sobre o suposto suplemento, depois quando sentiu diferenças no seu corpo e no modo como recuperava dos esforços.
O escândalo BALCO
A THG foi indetectável pelos laboratórios antidopagem até 2003, altura em que Graham enviou, de forma anónima, uma amostra para a Agência Antidoping dos EUA (USADA), denunciando a BALCO (Graham já tinha quebrado a sua ligação ao esquema baseado no esteróide sintético, mas continuava a perder atletas para a empresa californiana).
A reanálise de amostras de urina armazenadas levou à punição de vários atletas conhecidos, entre os quais Regina Jacobs, recordista e bicampeã mundial dos 1500 metros em pista coberta. A colaboração com outras autoridades federais levou à descoberta de mais crimes cometidos por membros da BALCO e as provas desse inquérito permitiram penalizar atletas sem que estes tenham registado testes positivos, algo inédito.
Vários velocistas foram visados, entre eles Tim Montgomery (perdeu o recorde mundial dos 100m devido a este caso), mas Marion Jones conseguiu resistir à pressão da USADA, a quem faltavam provas para vencer em arbitragem a estrela olímpica. E Jones sempre negou ter-se dopado, inclusive quando o presidente da BALCO, Victor Conte Jr., disse publicamente que forneceu THG à atleta e que a viu injectar-se com dopantes.
Marion Jones explica na carta que, em 2003, quando foi interrogada por agentes federais, negou ter consumido the clear (os envolvidos no esquema de dopagem chamavam à THG the clear, o límpido), apesar de, quando lhe foi mostrada uma amostra, ter afirmado que usou essa substância no campo de treino de Graham. Tanto neste interrogatório como na ocasião em que foi questionada sobre os crimes de Montgomery, a atleta alega ter entrado "em pânico" e mentiu para não ver o seu nome associado a confusões.
A pena máxima cumulativa que poderá ser aplicada a Jones é de dez anos de prisão, mas a atleta só deverá cumprir seis meses, se o juiz aceitar a sugestão do procurador. A sentença será divulgada em Janeiro.
Sem medalhas nem carreira
Marion Jones, que ontem anunciou o fim definitivo da sua carreira de velocista, já começou a ser pressionada para devolver as medalhas que conquistou em Sydney 2000. A exigência foi feita pelo comités olímpicos dos EUA e da Austrália, país organizador dessa edição dos Jogos Olímpicos. O Comité Olímpico Internacional (COI) abriu em 2004 um inquérito às consequências do escândalo BALCO nos Jogos e a confissão da velocista vai acelerar o processo.
"É um dia triste para o desporto. O único bem que pode ser retirado das revelações de hoje [ontem] é a possibilidade de a sua decisão de finalmente admitir a verdade poder desempenhar um papel-chave na descoberta do caso BALCO", afirmou Jacques Rogge, presidente do COI. "Ganhámos, mas não nos sentimos melhor com o que se está a passar. O facto de ela ter usado dopantes não surpreende. As pessoas suspeitavam ou sabiam, mas não conseguiam provar. Quando alguma coisa é demasiado boa para ser verdade, provavelmente não é", disse à AP o presidente da Agência Mundial Antidopagem, Richard Pound.
Jones também deverá ser alvo da Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF), que poderá retirar-lhe também os títulos ganhos em outras provas para além dos Jogos Olímpicos e exigir-lhe a devolução de um milhão de dólares que ganhou em prémios, isto apesar de a atleta estar falida. "É terrível o que ela está a fazer ao desporto. Está a arrastar o atletismo pela lama", disse Nick Davies, da IAAF, ao "The Washington Post".
"Sempre que um atleta admite em tribunal que se dopou, os atletas limpos esperam que a USADA os tenha em conta. Temos a intenção de fazer isso, mesmo que signifique retirar medalhas olímpicas", afirmou Travis Tygart, director executivo da Agência Antidoping dos EUA.
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Do estrelato à desgraça
Marion Jones foi uma das melhores atletas femininas de sempre. Pelo menos é isso que os resultados dizem da mulher que concentrava sucesso desportivo, beleza física e simpatia. Afinal, a rainha da velocidade tinha pés de barro. Jones sempre viveu para o desporto: aos nove anos foi campeã americana de velocidade na sua categoria; sete anos depois foi chamada para suplente da estafeta 4x100m nos Jogos Barcelona 1992, convite que rejeita.
A atleta que tem raízes no Belize (a sua mãe deixou o país em 1968 e rumou aos EUA, onde Jones nasceu sete anos depois) ainda tentou uma carreira no basquetebol, enquanto estudou jornalismo e comunicação na Universidade da Carolina do Norte, mas uma fractura num pé levou-a ao atletismo. E foi o primeiro marido, o lançador do peso CJ Hunter, que a apresentou a Trevor Graham, o treinador especialista em criar sprinters.
Em 1997 e no ano seguinte obteve 41 vitórias seguidas em provas de velocidade e salto em comprimento. Em 1998 faz a segunda melhor marca de sempre nos 100m (10,65s) e 200m (21,62s). Entre 1997 e 2002 venceu 59 das 60 provas de velocidade em que competiu e ganhou cinco títulos mundiais. Parou a carreira em 2003 (engravidou do primeiro filho) e foi então que surgiram as suspeitas do seu envolvimento no caso BALCO.
Regressou no ano seguinte, mas em Atenas 2004 foi apenas quinta no comprimento. Em 2006 tenta o regresso às pistas e por duas vezes faz os 100m abaixo dos 11s, mas é-lhe detectada eritropoietina, não confirmada na contra-análise, e a sua carreira morre.
BI
Nome: Marion Jones
Naturalidade: Los Angeles, EUA
Data de nascimento: 12/10/1975
Estado civil: Casada (mãe de duas crianças)
Altura: 1,80m
Peso: 68kg
Desporto/disciplina: atletismo/velocidade
Palmarés
Jogos Olímpicos
Ouro: 100m, 200m e 4x400m em Sydney 2000
Bronze: 4x100m e salto em comprimento em Sydney 2000
Campeonatos do Mundo
Ouro: 100m em 1997 e 1999, 200m em 2001 e 4x100m em 1997
Prata: 100m em 2001
Bronze: salto em comprimento em 1999
Marcas pessoais
100m: 10,65s (1998)
200m: 21,62s (1998)
400m: 49,59s (2000)
Salto em comprimento: 7,31m (1998)
PÚBLICO/AFP |
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